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A escritora e mulher de Jorge Amado estava se recuperando de uma cirurgia, mas após uma ligeira melhora, Zélia Gattai se deteriorou rapidamente. A Academia Brasileira de Letras (ABL), a qual Gattai fazia parte – ocupando a cadeira de número 23, que foi de seu marido e de Machado de Assis – decretou luto de três dias, como informa essa matéria da Folha on line.

Em homenagem a autora de “Anarquistas graças a Deus”, publico aqui resenha que fiz relacionando seu livro com o filme “A casa de Alice” do diretor Chico Teixeira:

Fui assistir no cinema ao recente filme “A casa de Alice” (Brasil, 2007), do diretor Chico Teixeira. Tinha lido alguma resenha sobre ele, mas já fazia tempo, portanto não me lembrava ao certo do que se tratava o filme – a não ser do cotidiano da família de Alice (Carla Ribas), uma manicure.
A história tem um drama complicado de se encarar, que são os relacionamentos familiares nada harmoniosos. Há a amante do marido, o amante da esposa e mais três filhos resultantes desse ambiente. Observamos algumas cenas, compartilhando os olhares atentos, porém silenciosos, da mãe de Alice dona Jacira (Berta Zemel), que também vive na casa.
Esse filme me marcou de uma maneira diferente, acredito que por estar às voltas com o livro de Zélia Gattai, “Anarquistas graças a Deus” (Brasil, 1983). Nele, a autora conta partes de sua infância quando morou em São Paulo, em meados dos anos 10 e 20. Zélia consegue nos inserir dentro do cotidiano de sua numerosa família – Dona Angelina, a mãe; seu Ernesto, o pai; Eugênio, o avô; e os irmãos Remo, Wanda, Vera e Tito – em um tempo bem diferente do qual Alice encara com sua família.
O interessante é observar as semelhanças e os contrastes das duas obras. Ambas se passam na cidade de São Paulo; em contextos, como já disse, muito diferentes; tratando da história de famílias nem ricas, nem pobres; e por fim, enquanto uma é considerada um caso real, a outra é uma ficção – mas que poderia muito bem ser um caso verídico.

Ao ler o livro de Zélia Gattai, sentimentos contraditórios se encontram, pois ao mesmo tempo que nos sentimos bem ao tentar imaginar uma ingenuidade e bondade tão puras de todos “personagens”, sabemos que nos dias atuais os comportamentos extremamente altruístas de dona Angelina com os desconhecidos e os animais soariam bobos. O que mais se percebe na história – e que me deixou com os sentimentos contraditórios que citei antes – é o poder que havia nos princípios de uma pessoa, isso sim era algo valioso. Ter em algo para acreditar e defender, como o anarquista seu Ernesto, que era um honesto trabalhador e por isso colecionou respeito e admiração por aqueles que o cercavam.
Não parava de pensar no livro enquanto assistia à “Casa”. Como pode haver uma diferença tão grande entre esses dois mundos? Fiquei com vergonha ao imaginar a situação totalmente absurda e hipotética, de um dos filhos da personagem Alice escrevendo um livro parecido com o de Zélia, contando como era o seu ambiente familiar, e esse livro, por sua vez, sendo lido por uma geração mais nova. Qual a imagem que ficaria?
Sei que não estou na idade do pessimismo para dizer “na minha época que era bom”, mas me assusta pensar como serão os próximos anos, como as famílias vão conseguir se reunir – e apreciar esses momentos -, e quais lembranças que restarão. Por isso, se você for assistir ao filme e ele te deixar para baixo; leia o livro, pois algo bom do início do século XX vai te deixar mais tranqüilo.

Camila Braga

 

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Oito anos de trabalho para a realização desse livro. Clarice Fotobiografia (656 páginas, Imprensa Oficial e Edusp),  foi lançado nessa terça-feira na Livraria Cultura, pela autora Nádia Batella Gotlib. A professora da USP é reconhecida como uma das maiores especialistas na obra de Clarice Lispector, que pesquisa sobre o assunto desde a década de 1980: “Para mim foi muito importante [o lançamento da Fotobiografia], porque é mais um capítulo numa longa história que eu tenho de pesquisa sobre Clarice. Então, eu fico mesmo muito feliz desse livro estar pronto.”, diz a autora para o blog Nefelibatas Cult.

Para a estudante de biblioteconomia, Graziela de Oliveira, o estudo e trajetória de Nádia sobre o tema é muito bem conceituado: “Eu acho que a Nádia fez um belo trabalho com a obra da Clarice, (…) fez uma obra fantástica, bem completa. Para quem quer conhecer, inicialmente, já tem um belo carro para seguir.” Graziela começou a ler as obras de Clarice em 2001, com os livros Laços de Família e A Hora da Estrela. De lá para cá, não parou mais, e lê a extensa bibliografia da autora sempre que pode.

O livro traz mais de 800 fotos da escritora, organizadas em ordem cronológica por Nádia. “Eu já tinha muitas imagens, mas depois o próprio material que eu tinha foi exigindo mais. Então, eu tive que desenvolver mais e mais pesquisa…isso demora,né?” Comenta a autora.

Eu penso que Clarice Lispector acharia muita graça do evento realizado para lançar o livro de sua fotobiografia. Diversos intelectuais, especialistas e estudiosos de sua obra estavam presentes e conversando entre si sobre ela, é claro. A escritora diz em uma de suas crônicas, – Intelectual? Não. –  publicada na imprensa em novembro de 1968, que não se considera uma intelectual, e confessa que não leu a maioria dos clássicos da humanidade. Pode-se pensar em suas obras, agora,  como parte dos clássicos da humanidade. Irônico,não?

Nádia Gotlib fala em matéria publicada pelo Estadão, no domingo, que “Sua produção é, a certa altura, chamada por ela mesma de ‘pulsações’, e está pautada pelo questionamento de valores, desconstrução de regras e certezas, movidas pelo desejo dramático de narrar aquilo que, no fundo, constata ser inenarrável.” Clarice tem grande reconhecimento por sua maneira de narrar e envolver o leitor com histórias de pessoas comuns, como a de Macabéa – em A Hora da Estrela – e brincar com as noções de tempo e espaço.

Eu, particularmente, não consigo assitir muitas filmagens e ver fotos de Clarice Lispector, durante a exposição realizada no Museu da Língua Portuguesa, em 2007, evitei ao máximo observar a entrevista realizada por ela para a TV Cultura, que passava no telão. Não tenho uma explicação para isso, apenas prefiro me concentrar nas palavras e nos mergulhos literários que a autora –  nascida na Ucrânia, em 1920 e naturalizada brasileira, em 1943 –  faz em seus textos. A pergunta que fica, com o lançamento desse livro, é: As imagens de Clarice expressam tanto de si quanto sua escrita? Cabe à você, leitor, analisar e descobrir isso. Se aventure nesse mundo, vale muito a pena.

Por Camila Braga

Para pessoas que nasceram na década de 80, como essa cidadã que lhes escreve, é muito frustrante não ter participado da efervescência musical que aconteceu na década de 60 e 70 no Brasil. Em meio a muita censura e violência, é verdade, foram tempos em que uma simples frase podia dizer muita coisa e assim, punir seu autor.

Na noite do dia 2 de abril, em lançamento do livro São Paulo minha cidade, pude ter um gostinho da época que não vivi, com apresentações musicais de Pery Ribeiro – carioca -, Jair Rodrigues – nascido em Igarapava/SP -, Claudya, Alex Cohen, Happin Hood, Fabiana Cozza, Quinteto Branco e Preto e Billy Branco – nascido em Belém/PA, que prestaram uma homenagem à cidade de São Paulo e seu poder acolhedor de diferentes pessoas, costumes, tradições…enfim, cultura. Nada mais natural que fazer isso com música.

Ter a oportunidade de presenciar músicas como “Disparada” na voz e contagiante apresentação de Jair Rodrigues é algo especial. Algo que, normalmente, só se conhece por algumas documentações em vídeo e livros, como “Noites Tropicais” do jornalista Nelson Motta, um carioca, que teve o privilégio de conviver com essas pessoas no período em que tudo florescia. Contou o que pôde sentir e foi, a partir desses relatos, que minha cabeça viajou durante as apresentações no palco da Sala São Paulo.

O livro que foi lançado na noite traz os relatos de mais de 300 internautas-autores que escreviam suas histórias para o site – de mesmo nome do livro. Decidiu-se reunir e publicar essas histórias de pessoas que nasceram ou passaram a viver e a amar o caos urbano paulistano como seu verdadeiro lar. O livro pode ser baixado no site em formato PDF.

Por Camila Braga