Wellington Nogueira

Wellington Nogueira, fundador dos Doutores da Alegria. Ele seria o entrevistado daquele dia, e, ao nos prepararmos para entrevistá-lo, na tarde do dia 25 de maio, uma segunda-feira, senti algo parecido com o que a Thaís escreveu sobre seu nervosismo ao conversar com Cláudio Thebas. É uma sensação muito esquisita entrevistar alguém com quem parece já termos uma certa intimidade. No caso da Thaís, ela havia lido o livro do entrevistado. No meu caso (e no das demais integrantes), havia visto o documentário “Doutores da Alegria – O Filme”, dirigido por Mara Mourão, esposa do fundador do grupo. No filme, Wellington conta a história dos Doutores, fala sobre o que pensa do palhaço, explica um pouco de seu trabalho nos hospitais, entre outras coisas. Tudo acompanhado de belos momentos de atendimentos feitos pelo grupo.

Mas apesar de um certo “friozinho na barriga”, nos dirigimos ao Galpão dos Doutores da Alegria, local que já conhecíamos, pois semanas antes havíamos assistido a “Palhestra” feita por Soraya Said e Thais Ferrara, duas “besteirologistas” do grupo. Como de costume, minutos antes o grupo se encontrou na frente do local para os últimos acertos. Logo, então, entramos. As fotografias dos Doutores espalhadas pelo local criam a ambientação necessária para o visitante sentir a delicadeza do trabalho desenvolvido pelo grupo.

Depois de conversarmos com a assessora do grupo, Maria Rita, acertamos o local onde poderíamos realizar a entrevista: uma vasta sala de reuniões, decorada com um grande vasos de planta, colocada encostada em um dos cantos da parede do fundo, ao lado da janela. Uma grande mesa redonda e vermelha poderia ser facilmente colocada ali próxima, o que criaria o cenário ideal para a gravação. Talvez seja a intensidade com que assumimos a tarefa de adendrar no universo do palhaço, mas a mesa, incrivelmente, me pareceu um grande e bonito nariz-de-palhaço (ou seria realmente essa a intenção?!?!).

 Enfim, devaneios à parte, tudo estava pronto: o “cenário”, as duas câmeras posicionadas sobre os tripés, voltadas na direção da cadeira do entrevistado, perguntas em mãos. Instantes depois, Wellington vinha em nossa direção. Era hora de rapidamente começarmos a entrevista, já que o entrevistado teria pouco mais de 40 minutos para a gravação. Na pauta estavam perguntas sobre o surgimento do grupo, a dificuldade de precisarem lidar com temas delicados (como a morte), a importância da remuneração dos “besteirologistas” para o aprofundamento na técnica do palhaço, a razão de o atendimento ser voltado para as crianças (além dos pais e da própria equipe médica e técnica do hospital), e ainda as duas questões-chave para nosso trabalho: a definição individual de cada entrevistado para os conceitos de riso e de palhaço.

Muito simpático e atencioso, entregamos a Wellington uma cópia de nosso projeto para o trabalho do videodocumentário. Ele folheou o calhamaço e pareceu interessado. Avisamo-lhe que poderia ficar com o texto, para conhecer um pouco mais do que estávamos desenvolvendo, ao que ele agradeceu e comentou que com certeza leria posteriormente com mais calma. Pudemos, então, começar a gravação da entrevista. A cada pergunta, o entrevistado bebia um gole de água e pensava durante alguns instantes antes de responder. Sua tranquilidade pareceu ter também me acalmado, e percebi que fui, aos poucos, perdendo a timidez e me sentindo cada vez mais a vontade. Vinte, talvez vinte e cinco minutos depois, a entrevista chegava ao fim.

Agradecemos sua atenção e o convidamos para, no fim do ano, ir assistir a nossa banca e ao videodocumentário pronto. Ele nos disse que essa época de fim de ano sempre é bastante corrida e cheia de eventos em empresas. Mas que faria o possível para comparecer. No momento de guardarmos todos os equipamentos, uma das alunas acabou por derrubar no chão grande parte das bolsas e pastas colocadas sobre uma cadeira, no canto da sala. Wellington, que vestia uma simpática camisa cheia de desenhos de carrinhos infantis e segurando uma caneca com água onde se lia, em letra cursiva, “Dr. Zinho”, disse, como que dando lugar a seu palhaço interior e provocando risadas no ambiente:

– Vocês acreditam que vivo fazendo isso?! 

 

Por Fernanda Pierina (Palhaça Tchicabá)

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